Sem acordo

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Depois de 48 horas do término da chuva, a região metropolitana de São Paulo ainda tinha pontos de alagamento. Foram 13 mortes, mais de 21 milhões de pessoas paralisadas, sistema de transporte em colapso, e um brutal impacto na economia. No Rio de Janeiro, as chuvas avassaladoras que caíram em fevereiro foram precedidas por temperaturas médias altas (com sensação térmica que bateu os 50°!). 

O Relatório Especial sobre o Aquecimento Global de 1.5 °C, lançado pelo IPCC em 2018, é um dos estudos mais escrutinizados da história, e analisa as perspectivas de limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação ao Período pré-Industrial. Baseado em uma avaliação de mais de 6.000 trabalhos científicos recentes, sua produção incluiu três rodadas de revisão e respostas a mais de 40.000 comentários por parte de governos, organizações da sociedade civil e especialistas de todos os continentes. 

Ele, mais uma vez, alerta: o aquecimento global já produz vítimas e prejuízos e representa uma ameaça para todas as formas de vida do planeta. O mundo já aqueceu 1°C, resultado de atividades humanas, e não há outro caminho que não seja o de zerar as emissões de CO2 em 20 anos e reduzir drasticamente a emissão de metano, gases fluorados e oxido nitroso.

Ultrapassar a barreira de 1,5° de aumento na temperatura média global, levará a incertezas sem precedentes, nos empurrando para além dos limites conhecidos e com nenhuma experiência institucional ou de governança para enfrentar a situação. 

Mortes e a doenças devido a riscos diretamente atribuídos às alterações climáticas, como ilhas e ondas de calor mais intensas, inundações urbanas, costeiras, secas e estiagens mais frequentes e aumento de doenças transmitidas por vetores, como malária e dengue são alguns dos efeitos que já podem ser notados.

A agricultura sofrerá impactos radicais à medida que as temperaturas aumentam e o estresse hídrico passa a ser regra. Esse cenário tem resultados catastróficos para a segurança alimentar, o aumento na escala da migração de populações de áreas rurais para áreas urbanas e destruição de arranjos econômicos inteiros. Tais impactos serão mais sentidos, e com mais dificuldades de adaptação, no Sul Global, mais pobre e tendem a se intensificar, já que o avanço do aquecimento global ao longo do século 21 transformará a frequência com que o fenômeno El Niño ocorre.

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aumento da temperatura das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical, causando mudanças nas correntes oceânicas e maior formação de nuvens na região equatorial, além de alterações no clima em todo o planeta, com a ocorrência de mais precipitações em algumas regiões e seca em outras. Estamos assistindo mais uma vez ele arrasar cidades e economias em 2019.

É possível que o El Niño, que ocorre em intervalos que variam de 3 a 7 anos, passe a ser um novo padrão climático e passe a acontecer todos os anos, já que a previsão de chuvas prevista para o planeta nas próximas décadas, também associada ao aquecimento global, é semelhante ao de precipitações verificado nos anos do fenômeno. No Brasil, ele costuma aumentar a temperatura média em todo país, diminuir o volume de chuva na região norte e nordeste, enquanto eleva as precipitações no sul e sudeste.  

O Acordo de Paris de 2015 marcou uma etapa histórica no desafio sobre adaptação e mitigação às mudanças climáticas. No entanto, os atuais compromissos globais não são suficientes para evitar o aumento da temperatura acima de 2,0°C. A escala para as mudanças socioeconômicas e tecnológicas necessárias para limitarmos o aquecimento global em 1.5° não tem precedente na história da humanidade, e por isso a ação é urgente. O padrão de emissões atual levará à quebra de pontos de inflexão, causando impactos irreversíveis, desastrosos para as pessoas, o ambiente e a economia, nos levando a limites onde a adaptação é impossível. Quanto mais tempo demorarmos, mais caras serão as soluções, quando possíveis.

A ciência já nos alerta há décadas sobre o que está acontecendo hoje e o que acontecerá nos próximos anos com nosso planeta. Com eles não há acordo, não tem como negociar. É preciso agir.

Artigo originalmente publicado na edição impressa em 19/03/2019 do Jornal Tribuna da Bahia.

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