É o clima, idiota!

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Em 1991, George Bush tinha “vencido” a Guerra do Golfo e nadava de braçada, favorito para as eleições enfrentando o desconhecido governador de Arkansas, Bill Clinton. O estrategista de Clinton, James Carville, acreditava que poderia vencer explorando a recessão econômica que crescia e cunhou uma frase que a campanha deveria focar: “A economia, estúpido!”. Clinton venceu, tirou os EUA da recessão e foi reeleito. A frase é usada até hoje e adaptada a diversos contextos.

Pula pra 2020. O mundo vive um dos seus maiores e mais urgentes desafios civilizatórios: vencer a crise climática. Mesmo assim alguns líderes globais seguem dando de ombros para alertas científicos e coices da natureza. Nesse contexto o Fórum Econômico Mundial se reuniu mais uma vez em Davos, mas agora o “Relatório de Riscos Globais 2020”, documento lançado dias antes da reunião anual do fórum, e que serve para subsidiar os debates, apontou que os 5 maiores riscos para a economia mundial nos próximos 10 anos estão diretamente associados a crise climática: eventos climáticos extremos; falhas no combate à mudança climática; perda de biodiversidade e esgotamento de recursos; catástrofes naturais e desastres ambientais causados pelo homem.

Os efeitos das mudanças climáticas estão colocados como riscos de curto e longo prazo, e é a primeira vez em 15 anos que temas ambientais dominam os debates e preocupações do Fórum.

O relatório aponta que a crise climática se aprofunda ano após ano e que poderá colapsar a economia mundial aos moldes da crise financeira de 2008. Essa constatação é baseada na análise de múltiplos indicadores ambientais, sociais e econômicos e atribui urgência na ação para debelar a crise. O relatório se soma a estudos do IPCC, Banco Mundial e FMI, que apontam para a mesma direção.

A crise climática já afeta as economias e o setor financeiro: o aumento da ocorrência de eventos causa danos à infraestrutura, à propriedade e à terra e os países mais pobres são os mais expostos. Só em 2018, desastres naturais geraram custos de US$ 165 bilhões no mundo, podendo chegar a US$ 314 bilhões em 2030 segundo o FMI, enquanto 100 milhões de pessoas podem ser empurradas para a extrema pobreza, segundo o Banco Mundial, que estima que quase 75% das perdas econômicas causadas por desastres naturais desde 1980 são atribuídas a extremos climáticos.

Há também os custos das mudanças necessárias em todos os setores para a transição para uma economia de baixo carbono: quanto maior a demora, maior será o preço. “As empresas e mercados serão forçados a se ajustar mais rapidamente, o que poderia levar a custos mais altos, mais disrupções econômicas ou intervenções draconianas de formuladores de políticas em pânico”, diz o relatório. Apenas para as 200 maiores empresas do planeta é estimado um custo de US$ 1 trilhão caso não haja ação contra a crise do clima.

Mas, como crises são também geradoras de oportunidades, a transição para uma economia de baixo carbono e adaptação aos efeitos da crise pode render US$ 4,2 trilhões, com US$ 4 em benefício para cada US$ 1 investido.

Encerramos a década mais quente da história, e temos a chance de fazer a década que nos levará a um planeta equilibrado e justo. Como diz o velho ditado popular: a gente só sente quando dói no bolso. Já estamos todos sentindo. É o clima, idiota!

O ano de 2019 marcou o fim da década mais quente desde o início dos registros, incêndios atingiram a Austrália com intensidade sem precedentes, a cidade de Veneza teve sua maior inundação em décadas, o ciclone Idai matou centenas em Moçambique e o derretimento de gelo quase bateu recorde no Ártico e na Groenlândia.

A publicação chama sua seção sobre o clima de “uma década restante”. Se o ano de 2019 despertou a sociedade para a questão climática, os anos 2020 definirão como ela sairá da crise, sugere o texto. A ideia reproduz a projeção da ONU, que em 2018 afirmou que restavam mais 12 anos para a humanidade agir a tempo de evitar as previsões mais graves sobre o futuro do clima.

Artigo produzido por André Fraga originalmente publicado na edição impressa online em 29/02/2020 do Correio. 

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