Chegamos ao Ponto de Mutação?

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Angustiado com o isolamento necessário para enfrentarmos esse organismo microscópico, mas entre reuniões digitais, afazeres domésticos e apoio a organizações sociais e grupos vulneráveis, consegui também me reencontrar com alguns grandes amigos. Amigos que moram aqui casa, e, mesmo assim, ficávamos algum tempo sem nos ver. Livros que moldaram minha forma de ver e entender o mundo. Entre eles, esses dias me reencontrei com, o Ponto de Mutação, Fritjof Capra.

E foi um reencontro providencial.

Capra ficou conhecido em 1975 quando lançou seu livro de estreia, já vendendo milhões de copias por todo o mundo. Mundo, que saia dos anos 60 onde a contracultura trouxe ideias de pacifismo, igualdade e amor. Físico com passagens por universidades tradicionais e renomadas do ocidente, se conectou com a sabedoria, o misticismo e as religiões orientais. Budismo, hinduísmo, taoísmo. O livro best seller foi o Tao da Física, onde ele conecta a física moderna à filosofia tradicional oriental.

A ousadia de dizer que Newton e Descartes já não tinham as respostas para os desafios atuais e que a física moderna é muito mais próxima de ensinamentos milenares orientais, não passaria desapercebida. Parte da academia riu. Outra parte acreditou que tivesse enlouquecido. Mas milhões de pessoas o leram.

O Tao, aquele símbolo que a gente conhece popularmente como Yin Yang e que dá nome ao livro, representa um princípio básico, mas que foi perdido, de acordo com Capra, em função da visão mecanicista da física ocidental clássica cartesiana, que separa e compartimentaliza tudo, e que influenciou todas as outras áreas do conhecimento: o equilíbrio. Ele mostra que, ao longo da história da humanidade, o Yang, a energia masculina, predominou gerando o patriarcado, o capitalismo e métodos de exploração e dominação. Esse excesso de energia Yang trouxe avanços, mas reprimiu a energia Yin, feminina, corpo-intuição.

Essa repressão e desequilíbrio gera crises em função da devastação de florestas, polução de rios, do consumo ilimitado de recursos naturais, da desigualdade social, da escravidão humana e animal. Abre-se então, de forma necessária, mas também natural, espaço para o reequilíbrio entre as energias, e Yin, representada pela ecologia, cooperação e feminismo emerge, a partir de modelos sistêmicos e holísticos, para reequilibrar nossa forma de desenvolvimento, promovendo harmonia e sensibilidade na construção de um mundo mais justo, igualitário e sustentável. Entender a grande teia da vida, que cresce em todas as direções e se relaciona de infinitas formas, deixar o patriarcado de vez pra trás e olhar pra um futuro colaborativo e harmônico.

Mas o amigo que reencontrei me apresentou tudo isso de uma maneira mais detalhada, ainda na faculdade de Engenharia Ambiental. Logo na Engenharia? Foi o segundo livro de Capra, que se chama O Ponto de Mutação. Nesse livro ele explora mais detalhadamente como em todas as frentes do conhecimento, o paradigma cartesiano nos trouxe até um momento de mutação. O nome do livro, mais uma vez vem de uma cultura oriental. É inspirado no I Ching, ou Livro das Mutações, conjunto complexo de textos clássicos chineses que foram reunidos ao longo da história. Pode ser estudado como um oráculo ou como um livro de sabedoria.

O Ponto de Mutação vai mostrando como chegamos em crises na economia, na medicina, na psicologia em função da opção mecanicista cartesiana que fizemos, chegando definitivamente ao nosso momento de transformação. Em contraponto, ele segue defendendo uma visão holística e sistêmica, para darmos conta da complexidade real da teia da vida, e como as concepções mais modernas da física, em especial a quântica, trazem caminhos para um futuro equilibrado e harmônico, e se conectam com os ensinamentos milenares orientais.

E, no meio de uma pandemia, algo que lá no fundo a gente nunca achou que ia acontecer, não podemos negar que tá tudo desequilibrado, né?

E, podendo pensar um pouco sobre tudo, lembro que até alguns dias atrás um assunto vinha mobilizando milhares de jovens por todo o mundo, em grandes passeatas que reuniram dezenas de milhares de pessoas. Esse mesmo assunto transformou uma menina de 17 anos, na maior liderança pelo combate a crise climática das últimas décadas. Ela foi capa da revista Time, esteve no Fórum Econômico Mundial, em diversas conferencias da ONU, sentou-se com os maiores líderes globais e mega empresários e foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz. A força de Greta Thumberg residia na sua capacidade, sem igual nos últimos anos, de mobilizar pessoas fisicamente para ir as ruas e de se posicionar de forma firme.

Greta trazia ainda uma forte simbologia. Uma mulher e jovem. Uma grande injeção de Yin para forçar o reequilíbrio.

De repente tudo mudou.

As cenas de ruas tomadas por pessoas exigindo ação firme de seus governos para impedir que o clima do planeta sofresse danos irreversíveis, por enquanto, ficarão como lembranças registradas em fotografias. A orientação para que todos fiquem em casa com o objetivo de retardar o contágio e não levar os sistemas de saúde ao colapso, não só fizeram com que Greta interrompesse sua ofensiva, mas também colocou a crise climática num segundo plano de prioridade.

De alguma maneira, a evolução do problema também ficou em segundo plano, com forte impacto na vida e economia do planeta. E aí reside uma oportunidade. Mas não é isso que todas as crises representam?

É bem provável que a desaceleração econômica provocada pela pandemia tenha um impacto equivalente ou maior do que a recessão global causada pela crise de 2008, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa globais em 2020 e talvez em 2021 ou 2022. Se seguíssemos a trajetória que tínhamos trilhando, dificilmente conseguiríamos segurar o aumento da temperatura do planeta abaixo dos 2 graus centígrados e evitar uma tragédia global ainda maior que a pandemia nos oferece agora.

E essa oportunidade precisa ser aproveitada em todos os sentidos. Repensar investimentos em infraestrutura, as opções para a matriz energética global e a regulação de mercado financeiro. Reduzir desigualdades e redirecionar o desenvolvimento para um modelo menos economicista, baseado no crescimento infinito do PIB, e mais biológico, holístico e sistêmico, considerando o desdobramento multidimensional da vida e das nossas capacidades, não apenas econômicas, mas culturais, espirituais e intelectuais. Vivemos aquele momento em que temos a oportunidade de escolher um novo modelo, uma sociedade nova, mais colaborativa, harmônica e de baixo carbono.

E nessa quarentena encontrei um novo amigo. E ele, já meio que conhecia O Ponto de Mutação. Comecei a ler Autobiografia de um Yogue, de Paramahansa Yogananda.

André Fraga, é Engenheiro Ambiental e acha que Newton não percebeu tudo que tinha a ver com a queda da maçã.

Artigo produzido por André Fraga originalmente publicado no site Muita Informação em 18/04/2020 

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