271 resultados encontrados com uma busca vazia
- Livro: Política em tempos de indignação de Daniel Innerarity
Reflexão apurada dos nossos tempo. Pensador espanhol Daniel Innerarity escreve a partir de um tema universal. Serve pra Espanha como para o Brasil atual. Vale a pena. “ O que os políticos fazem é bem conhecido e pouco entendido. A sociedade compreende pouco os condicionamentos no meio dos quais é preciso se mover e as complexidades da vida pública. Isso não deve ser entendido como uma desculpa, pelo contrário: é o elemento de objetividade que nos permiteafinar nossas críticas e impedir que dominem de forma desenfreada o espaço da impossibilidade. O grande inimigo que é preciso combater não é tanto a miséria ou o medo, mas sobretudo a ignorancia. Nossos principais desafios tem a ver com o conhecimento em sentido amplo, e as estratégias mais decisivas se orientam para a política do conhecimento, a ciência, a tecnologia, a inovação, a investigação e a formação. A verdadeira riqueza das nações reside no seu saber. Que significado tem isso para a política? Que desafios o governo coloca? Seja como for, é preciso voltar a desenhar instituições de governo na era das redes. A governança efetiva no Século XXI requer colaboração organizada. Trata-se de transformar hierarquias em ecossistemas de conhecimento colaborativo e mudar assum radicalmente a cultura de governo a partir de um saber técnico centralizado para outro em cujo desenho a revisabilidade ocupe um lugal fulcral. As aprendizagens em política requerem processos de reflexão em que possam ser analisadas as consequencias das mudanças introduzidas, os possíveis efeitos não desejados, e em que se elabore uma avaliação conjunta das políticas públicas. Em outros tempos pensar talvez fosse considerado uma perda de tempo; no nosso pensar é uma forma de poupar tempo, um modo radical de atuar sobre a realidade. “
- Cidades Saudáveis
De acordo com a Lancet Commission on Pollution and Health (2017), um esforço cientifico que envolve os mais respeitados pesquisadores do planeta, a poluição é uma das maiores causas de doenças e mortes prematuras em todo o mundo, tendo sido responsável pela perda de 9 milhões de vidas humanas em 2015. Isto corresponde a 16% de todas as causas, 3 vezes mais que AIDS, tuberculose e malária juntos e 15 vezes mais que guerras e mortes violentas. A poluição é seguida por outros dois fatores de risco: a dieta e o sedentarismo. Para o controle destes riscos surge um campo de debate e estudo denominado “saúde urbana”, que reúne especialistas de diversas áreas: saúde, urbanismo, engenharia, economia, geografia, sociologia, etc... A implementação de ações neste campo depende do envolvimento e diálogo entre as diversas partes interessadas, incluindo governo, setor privado, academia e comunidade. Instituições em todo o mundo tem utilizado como parâmetro os 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecido pelas ONU, para reorientar o desenvolvimento global no século XXI. Se busca estabelecer um novo olhar para o planejamento das cidades de forma articulada integrando especialmente os riscos. Um dos pressupostos para o alcance das metas dos ODS é “engajar pessoas” para a força tarefa, estabelecendo diálogos e parcerias com perspectiva de abordagem intersetorial. A narrativa de como os problemas ambientais incham os sistemas de saúde, gerando custos para o tratamento de doenças tem feito com que a abordagem ambiental passe a sensibilizar mais tomadores de decisão. Neste contexto estratégias para abordar os diferentes problemas relacionados ao impacto à saúde provocado pela poluição ambiental, com foco especial em alguns dos ODSs (erradicar a pobreza, melhorar a saúde, melhorar acesso à água potável e saneamento, promover justiça social, construir comunidades e cidades saudáveis, combater mudanças climáticas e proteger solo e água, respectivamente) passam a contar com diversos atores que antes atuavam de forma paralela e desconectada. Esse estabelecimento de processos para análises de riscos, utilizando bases científicas como suporte para a tomada de decisão é uma nova forma de olhar a cidade e seus problemas. Outro elemento fundamental neste processo é a comunicação de risco que deve envolver o setor públicos, privado e sociedade civil organizada, “transpondo muros”, sobretudo para que a tradução do conhecimento possa alcançar todos os envolvidos em tempo hábil para a mitigação de riscos, no sentido de preparar as cidades para o enfrentamento de choques e tensões. As mudanças climáticas se apresentam de forma dramática aumentando a periodicidade de eventos climáticos extremos que afetam diretamente a saúde das pessoas nas cidades. Ondas de calor, de frio, ressacas, inundações e alagamentos, deslizamentos de terra, tudo acaba tendo impacto na saúde urbana. Há estudos científicos que ligam o desastre ambiental de Mariana com o aumento no número de casos de febre amarela no país por exemplo. O tempo de adaptar as cidades para essa realidade é agora e se coloca como uma grande oportunidade de tornar as cidades mais sustentáveis, saudáveis e verdes. Artigo originalmente publicado na edição de 20/01/2018 do Jornal Correio de autoria conjunta entre: Nelzair Vianna – Pesquisadora em Saúde Pública Fiocruz BA, Doutora pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. André Fraga – Secretário de Cidade Sustentável e Inovação de Salvador, Engenheiro Ambiental.
- Departamento de RH
Toda grande organização geralmente possui um setor que tem como papel selecionar, contratar, desenvolver, treinar, motivar, engajar, reconhecer, atrair e reter colaboradores. O RH, como geralmente é chamado esse departamento, tem ainda o papel de disseminar a cultura, missão e valores, alinhando as políticas de recursos humanos com a estratégia da organização. José era autônomo. Assaltava pequenas lojas do comércio de bairro. Um dia foi pego. Preso em flagrante. Levado a delegacia, acabou indo parar no presídio. Chegando lá o carcereiro perguntou a que facção criminosa ele pertencia. Se declarou autônomo, independente. O carcereiro então perguntou onde ele morava, qual bairro e rua. Com essa informação ele sentenciou a que facção José passaria a integrar, convivendo com seus próximos colegas de trabalho na ala dedicada a eles na penitenciária. Assim o Estado transformou nossos presídios no RH do crime organizado. E José, que chegou com segundo grau incompleto, sairá de lá, com um MBA, além de disseminar a cultura, missão e valores de sua nova organização. Em 2016 subimos ao pódio. Mas não foi só pelas olimpíadas. Conquistamos o 3º lugar em quantidade de gente nas cadeias. Só perdemos para gigantes como Estados Unidos e China. Já temos mais de 720 mil pessoas encarceradas. Em 26 anos nossa população carcerária multiplicou 8 vezes! A proporção de presos para cada 100 mil habitantes também tem crescido. Eram 260 em 2010, e 353 em 2016. E o perfil dos presos é o mesmo de sempre: a maior parte homens negros, jovens, pobres e com baixa escolaridade. Mesmo prendendo tanto, entre 2005 e 2015 passamos de 26,1 para 28,9 homicídios por cada 100 mil habitantes. Quase metade dos brasileiros hoje tem a percepção de viver em áreas sob a influência de grupos criminosos. Em 2017, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública realizou um levantamento nacional em que 23% dos entrevistados consideravam que é alta a chance de que o crime organizado ou facção atue em sua vizinhança. Outros 26% responderam que a chance é média. Não tinha como ser diferente. Aplicamos, nos anos 2000, a mesma política de enfrentamento às drogas adotada nos anos 1960. Lotamos os presídios em uma época de popularização dos celulares. Estava montado o escritório. A presença de facções criminosas era um fenômeno que se restringia a São Paulo e Rio de Janeiro. Hoje estão em todos os estados dentro e fora dos presídios conectadas com os principais produtores de drogas do continente. O Mercosul da cocaína. Qualquer análise rasa conclui que o modelo fracassou. E aqui o sistema penitenciário financiado pelo Estado recruta, engaja e multiplica para as facções criminosas, desperdiçando dinheiro de forma eficaz. Artigo originalmente publicado na edição de 30/12/2018 do Jornal A Tarde
- Marieles e Andersons
Em 1980, para cada 100 pessoas que sofriam homicídio, a polícia encontrava 81 suspeitos. No início dos anos 1990, o número caiu para 42. Um levantamento feito em 2012 pela Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública (ENASP), uma parceria entre o Ministério da Justiça, o Conselho Nacional de Justiça e o Conselho Nacional do Ministério Público, que buscou esclarecer inquéritos inconclusos que haviam sido abertos até 2007, identificou em apenas 19% dos casos foi possível encontrar um suspeito e oferecer denúncia à Justiça. Quando o assunto é homicídio doloso somente 6% é solucionado. Por aqui as CSIs, séries sobre departamentos de investigação criminal geralmente em cidades dos EUA, fazem imenso sucesso. Ficamos impressionados com as técnicas empregadas, com o auxílio de tecnologia, com a qualificação das equipes. Parecem estar em outro planeta ou em um futuro distante de nossa realidade. Por que estão. No Brasil a concepção de política pública de segurança raramente foge a tríade repressão, reação e encarceramento em massa. Aqui temos de um lado a Polícia Militar, responsável pela ação ostensiva e do outro a Polícia Civil, responsável por investigar os crimes. Como a presença de policiais nas ruas é uma demanda permanente da população, a Policia Militar fica com a maior fatia dos investimentos, enquanto que a Policia Civil, e consequentemente a investigação criminal, está sucateada. Falta de servidores, precariedade nas condições técnicas e científicas para investigação, péssimas condições de trabalho é a regra nas policias civis brasileiras. Essa situação gera impunidade e, com frequência, injustiça. Não é incomum alguém ser preso em flagrante pela Policia Militar, o crime não ter um inquérito criminal de qualidade realizado pela Polícia Civil, o Ministério Público não considera que há elementos para apresentar a denúncia a justiça, devolve para a polícia que devolve pro MP que nem denuncia nem arquiva. Se passam os noventa dias que a denúncia formal deveria ocorrer e quando a Justiça consegue julgar, em alguns casos, a pena que seria aplicada pelo juiz seria menor do que o tempo que esse alguém já ficou preso. Nosso sistema tem 49% de pessoas presas sem condenação. Só que aqui no Brasil esse alguém geralmente é negro, pobre e jovem. Representam 64% dos presos sem condenação. Em 2016 subimos no pódio: temos a terceira maior população carcerária do mundo com mais de 720 mil presos. Só perdemos pros Estados Unidos e pra China. Nos últimos 10 anos esse número mais que dobrou. O assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes é um retrato fiel do nosso sistema. A Polícia sabe como foi. Mas não sabe quem os assassinou. E estamos falando de um caso com repercussão internacional que tem mobilizado a opinião pública e as forças de segurança. E algumas das soluções fáceis apresentadas provavelmente ajudarão a aprofundar a crise. Seguir a lógica de prender mais, construir mais prisões nos fará seguir julgando cada vez menos e condenamos cada vez mais. Artigo originalmente publicado na edição impressa em 04/01/2019 do Jornal Correio.
- Atrasa-lado ou salva-vidas?
Tem gente que chama ele de atrasa-lado, porque acha que tudo demora mais um pouco e, que no final da história, não adianta pra nada. Já tem quem garanta que ele, na verdade, salva-vidas. É necessário. Indispensável, pra ser mais exato. Ele diz que apenas gosta de avaliar todas as possibilidades. Entende que seu trabalho é como um jogo de xadrez. Mexeu numa peça e todo o jogo muda. As consequências de um movimento podem ser inúmeras. Neutras e até positivas, mas também ruins. Então tem que ter precaução, por que em alguns casos o dano, que parece pequeno, pode ser grande e não vale a pena arriscar. E se valer a pena arriscar, não dá pra arriscar sem garantir algumas salvaguardas. Afinal, em baixo não tem colchão e a queda pode até, matar. E matou. Já foram mais de 150. Dava pra encher 5 ônibus e até um avião inteirinho. E isso foram só as consequências de dois movimentos. Em Mariana, três anos atrás, foram 19 vidas. Comunidades destruídas. Águas mortas. Vidas enlameadas. Agora tudo de novo, só que multiplicado por 10. E tudo isso feito por uma empresa Orgulho Nacional. Desde 2009 a mineração causou três vazamentos por ano deixando 93,77 milhões de metros cúbicos de rejeitos e substâncias tóxicas no mundo. Aqui no Brasil usamos técnicas de mineração ultrapassadas mas que seguem sendo aprovadas nos licenciamentos. O licenciamento ambiental nunca foi tão comentado. E a gente nunca sentiu tanta vergonha do Brasil. Vergonha por assistir tudo se repetir e causar destruição ainda maior. Dizimar vidas, famílias, casas, papagaio e periquito. Destruir rios. Mas tem quem diga: A lei é das melhores do mundo, mas não funciona, então libera, flexibiliza, afrouxa, elimina. Desde o crime de Mariana, foram três anos e seis propostas de lei no Congresso para deixar o licenciamento mais “simples, agilizar o investimento, aquecer a economia, desburocratizar o poder público, gerar emprego”. Mas a reparação de Mariana continua lenta, quase parando, na verdade pouco saiu do lugar, ninguém até hoje foi indenizado. O licenciamento é a melhor vacina para crimes como Brumadinho e Mariana. Não de pode brincar com as leis da física e matemática. Desenvolver estudos, avaliar cenários críticos, determinar ação de compensação e minimizar riscos são coisas que deveriam ser consideradas básicas. Brumadinho teve um processo de licenciamento eivado de furos. Mesmo assim “tava em dias com a documentação” por que teve sua categoria rebaixada a baixo risco, o que acelerou e “desburocrartizou” o licenciamento ambiental. A lama chegou à 80km/h e tentou apagar até a poesia. O Pico do Cauê, falado nos poemas de Carlos Drummond não existe mais; o Córrego do Feijão desapareceu. Exportamos o minério na sua forma mais simples. Abastecemos economias especializadas para depois importar produtos com alto valor agregado. E aqui ficam lama e o lixo. Artigo originalmente publicado na edição impressa em 27/02/2019 do Jornal Correio.
- Sem acordo
Depois de 48 horas do término da chuva, a região metropolitana de São Paulo ainda tinha pontos de alagamento. Foram 13 mortes, mais de 21 milhões de pessoas paralisadas, sistema de transporte em colapso, e um brutal impacto na economia. No Rio de Janeiro, as chuvas avassaladoras que caíram em fevereiro foram precedidas por temperaturas médias altas (com sensação térmica que bateu os 50°!). O Relatório Especial sobre o Aquecimento Global de 1.5 °C, lançado pelo IPCC em 2018, é um dos estudos mais escrutinizados da história, e analisa as perspectivas de limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação ao Período pré-Industrial. Baseado em uma avaliação de mais de 6.000 trabalhos científicos recentes, sua produção incluiu três rodadas de revisão e respostas a mais de 40.000 comentários por parte de governos, organizações da sociedade civil e especialistas de todos os continentes. Ele, mais uma vez, alerta: o aquecimento global já produz vítimas e prejuízos e representa uma ameaça para todas as formas de vida do planeta. O mundo já aqueceu 1°C, resultado de atividades humanas, e não há outro caminho que não seja o de zerar as emissões de CO2 em 20 anos e reduzir drasticamente a emissão de metano, gases fluorados e oxido nitroso. Ultrapassar a barreira de 1,5° de aumento na temperatura média global, levará a incertezas sem precedentes, nos empurrando para além dos limites conhecidos e com nenhuma experiência institucional ou de governança para enfrentar a situação. Mortes e a doenças devido a riscos diretamente atribuídos às alterações climáticas, como ilhas e ondas de calor mais intensas, inundações urbanas, costeiras, secas e estiagens mais frequentes e aumento de doenças transmitidas por vetores, como malária e dengue são alguns dos efeitos que já podem ser notados. A agricultura sofrerá impactos radicais à medida que as temperaturas aumentam e o estresse hídrico passa a ser regra. Esse cenário tem resultados catastróficos para a segurança alimentar, o aumento na escala da migração de populações de áreas rurais para áreas urbanas e destruição de arranjos econômicos inteiros. Tais impactos serão mais sentidos, e com mais dificuldades de adaptação, no Sul Global, mais pobre e tendem a se intensificar, já que o avanço do aquecimento global ao longo do século 21 transformará a frequência com que o fenômeno El Niño ocorre. O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aumento da temperatura das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical, causando mudanças nas correntes oceânicas e maior formação de nuvens na região equatorial, além de alterações no clima em todo o planeta, com a ocorrência de mais precipitações em algumas regiões e seca em outras. Estamos assistindo mais uma vez ele arrasar cidades e economias em 2019. É possível que o El Niño, que ocorre em intervalos que variam de 3 a 7 anos, passe a ser um novo padrão climático e passe a acontecer todos os anos, já que a previsão de chuvas prevista para o planeta nas próximas décadas, também associada ao aquecimento global, é semelhante ao de precipitações verificado nos anos do fenômeno. No Brasil, ele costuma aumentar a temperatura média em todo país, diminuir o volume de chuva na região norte e nordeste, enquanto eleva as precipitações no sul e sudeste. O Acordo de Paris de 2015 marcou uma etapa histórica no desafio sobre adaptação e mitigação às mudanças climáticas. No entanto, os atuais compromissos globais não são suficientes para evitar o aumento da temperatura acima de 2,0°C. A escala para as mudanças socioeconômicas e tecnológicas necessárias para limitarmos o aquecimento global em 1.5° não tem precedente na história da humanidade, e por isso a ação é urgente. O padrão de emissões atual levará à quebra de pontos de inflexão, causando impactos irreversíveis, desastrosos para as pessoas, o ambiente e a economia, nos levando a limites onde a adaptação é impossível. Quanto mais tempo demorarmos, mais caras serão as soluções, quando possíveis. A ciência já nos alerta há décadas sobre o que está acontecendo hoje e o que acontecerá nos próximos anos com nosso planeta. Com eles não há acordo, não tem como negociar. É preciso agir. Artigo originalmente publicado na edição impressa em 19/03/2019 do Jornal Tribuna da Bahia.
- Mais Armas, Mais Crimes
Você entra em uma loja de departamentos e, entre camisetas e anzóis de pesca, encontra prateleiras recheadas com pistolas, espingardas e outras armas de fogo. Sem muita burocracia você, ou qualquer outra pessoa, pode comprar, parcelando em até três vezes sem juros e registro grátis de brinde, e andar armado pelas ruas, nos bares, shoppings e parques. Estados Unidos? Não, esse era o Brasil até 2003, onde revistas e jornais estampavam páginas inteiras de promoções para a compra de armas de fogo, invocando e explorando o, já presente, sentimento de insegurança da população. Saudosistas dirão que nessa época as pessoas se sentiam mais seguras. Não é o que os números gritam. Entre 1980 e 2003 as taxas de homicídio subiram de forma vertiginosa no Brasil, 8% ao ano, segundo dados do Ministério da Saúde e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada-IPEA. Tinha bairro em São Paulo, o Jardim Ângela, que foi considerado pela ONU o mais violento do mundo, deixando a guerra civil da antiga Iugoslávia, a todo vapor em 1996, para trás nas estatísticas. Em 2003, ano que foi sancionado o Estatuto do Desarmamento, o Brasil bateu a marca de 36,1 assassinatos para cada 100.000 habitantes, mais que o dobro da taxa de 1983, vinte anos antes, que era de 14. O Estatuto do Desarmamento restringiu drasticamente a posse e o acesso a armas de fogo e, segundo o Mapa da Violência 2015, salvou mais de 160.000 vidas! O estudo mostra que o desarmamento não reduziu significativamente a taxa de homicídios, hoje em 29,9, mas cessou a progressão histórica que, se fosse mantida, seria de 71.118 homicídios para cada 100.000 habitantes nos dias de hoje. Do total de pessoas salvas, 113.071 foram jovens na faixa etária entre 15 e 29 anos, a parcela da população mais afetada pela violência urbana, geralmente negros, pobres e sem estudo. Há uma enxurrada de argumentos a favor e contra a posse e o porte de armas de fogo, mas o volume de pesquisas cientificas que mostram a relação entre o porte e posse de armas e efeitos negativos na sociedade é esmagadoramente maior. Estudos desenvolvidos nos Estados Unidos, a sociedade mais armada do planeta, encontraram diversas relações entre posse de armas de fogo e aumento da violência. Pesquisa, realizada em 1993, desenvolvida por professores da Universidade de Washington e da Universidade do Tennessee, demonstrou que a arma de fogo mantida em casa para a proteção, é, na verdade, um fator de risco de homicídio no domicílio independentemente de outros fatores, e estudo desenvolvido em 1997, concluiu que famílias com histórico de aquisição de armas possuem um risco de algum membro se suicidar ou sofrer um homicídio duas vezes maior que aquelas famílias que não possuem armas, e que este risco persiste por mais de cinco anos após a aquisição da arma de fogo. Pesquisadores de Stanford e Columbia (John J Donohue, Chandler McClellan e Erdal Tekin), concluíram que a adoção de leis mais permissivas ao armamento da população eleva em até 15% o índice de crimes violentos. Na África e América Latina, a taxa de homicídios sobe conforme aumenta a população armada, coisa que tem menos impacto em sociedades mais igualitárias. No Brasil, o estudo Menos Armas Menos Crimes do IPEA concluiu que a cada 1% a mais de armas, a taxa de homicídio aumenta 2%, mostrando que a desigualdade é uma variável letal para nossa realidade. Aqui, a região Nordeste se destaca, e hoje temos mais da metade dos homicídios do país. Uma conexão ainda mais perversa: as maiores taxas de homicídio caminham juntas com as maiores concentrações de jovens desempregados, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, mais uma vez . Em 2006, CPI sobre tráfico de armas revelou que 86% das armas usadas por bandidos têm origem legal, sendo que 68% foram vendidas por empresas brasileiras. Tentativas de mudança com foco na flexibilização do Estatuto do Desarmamento são financiadas por uma indústria com forte lobby no Congresso Nacional e nenhuma transparência nas suas operações. O Brasil já é quarto maior exportador de armas de fogo do mundo, a frente de gigantes como China e Rússia. Armas brasileiras são frequentemente encontradas em posse de grupos paramilitares e terroristas na África e Oriente Médio. Ao invés de flexibilizar o Estatuto do Desarmamento é urgente a implementação de mecanismos previstos nele, mas ainda não efetivados, como a marcação das munições em lotes menores que os atuais para facilitar a identificação da origem de um projétil e a integração de bancos de dados sobre armas de fogo da Policia Federal e do Exército. Medidas simplistas e uma canetada não vão reduzir a violência. O foco para enfrentar esse desafio deve estar na reforma do código penal, das instituições policiais e do sistema prisional, enfrentando a impunidade e modernizando todo o sistema de segurança pública, já que é responsabilidade do Estado assegurar a integridade física dos cidadãos. Essa responsabilidade não pode ser transferida para os indivíduos, os incentivando a ter e carregar armas. Porque esse cenário nós já conhecemos e sabemos o resultado. Artigo originalmente publicado em 21/03/2019 no site Bahia Notícias.
- Darwin e a Resiliência
Em 1832, durante o carnaval da cidade, chegava a Salvador o brigue britânico HMS Beagle, trazendo a bordo um jovem naturalista. Aqui, Charles Darwin teve seu primeiro contato com uma floresta tropical. Ele observou que os prédios eram construídos num estilo arquitetônico próprio e exuberante; que a luminosidade era diferenciada, com o céu de belíssimo azul e que as pessoas eram muito mais alegres do que se poderia imaginar na Europa. Foi com esse espírito de articular as riquezas – o patrimônio humano, histórico e natural da cidade, que a Estratégia de Resiliência foi construída. Não há caminho para o desenvolvimento urbano e econômico sem incluir o equilíbrio dos ecossistemas naturais como insumo para sobrevivência das cadeias produtivas e dos negócios. As cidades são o caminho mais lógico na busca por soluções para os desafios que o planeta enfrenta. A maior parte dos seres humanos vive hoje em centros urbanos e essa proporção seguirá aumentando, já que as cidades são também centros de esperança por uma vida melhor. E daí surge a oportunidade de criar soluções e dar escala a elas, através de redes como a 100 Cidades Resilientes. Resiliência e sustentabilidade são conceitos estratégicos essenciais na nova era da governança urbana. O esforço desenvolvido pela Secretaria de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência – SECIS, com a fundamental colaboração de todas as outras secretarias municipais, a sociedade civil, a academia e o setor privado, resultou em uma ponte para tornar Salvador uma cidade mais integrada e inclusiva. As iniciativas propostas na Estratégia de Resiliência estão conectadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e reforçam nosso papel de liderança quando o assunto é sustentabilidade, resiliência e mudanças climáticas. A Estratégia de Resiliência, que temos o prazer de lançar nesta semana, traz o melhor do espírito soteropolitano: criativo, empreendedor, cultural e conectado. Artigo originalmente publicado na edição impressa em 27/03/2019 do Jornal Correio.
- Resiliência urbana: prevenção para redução de riscos
Mais da metade da população mundial já vive em cidades, transformando-as na chave para a vida humana no século XXI. Neste contexto, o conceito de resiliência urbana pavimenta as discussões de como centros urbanos podem se preparar e se adaptar para enfrentar desastres naturais em um contexto de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e aumento da densidade populacional. Esta agenda norteia as ações da atual gestão municipal por meio da Secretaria de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência de Salvador. Resiliência, conceito originário da física, é entendida como o processo que envolve a capacidade de aprendizado e adaptação buscando, entre outras coisas, a redução de risco de desastres e a adaptação da cidade a eventos climáticos extremos. Desde 2016, a capital baiana passou a integrar a rede 100 Cidades Resilientes, fomentada pela Fundação Rockfeller, e adota, desde março, a Estratégia Salvador Resiliente, plano que contém 60 iniciativas para que a cidade seja mais resiliente, sustentável e inclusiva. O modelo de desenvolvimento territorial das cidades latino-americanas criou elementos geradores de risco, resultantes de ocupação irregular, em áreas ambientalmente sensíveis, com infraestrutura deficiente e baixo atendimento de serviços públicos. Esses fatores ampliam a vulnerabilidade de muitos cidadãos às ameaças naturais. Em Salvador, os deslizamentos de terra se traduzem em um dos desastres que, historicamente, mais afetam comunidades, razão pela qual o prefeito ACM Neto destinou recursos e investimentos na modernização das atividades da Defesa Civil, seja em obras voltadas à prevenção e minimização do risco, a exemplo das geomantas e contenção de encostas, seja na inteligência da informação com a implantação do Centro de Monitoramento da Defesa Civil (Cemadec), um dos mais modernos do país. Como resultados dessas ações, reforçadas por ações educativas, o número de vítimas fatais reduziu-se após a implementação, a partir de 2016, do Plano de Proteção e Defesa Civil. Entre as contribuições do órgão no campo da resiliência urbana está o banco de dados Mapa (Mapeamento e Projeto para Áreas de Risco) que, com a ajuda de tecnologia, moderniza a formatação de informações geoespaciais geradas pelas equipes da Defesa Civil. Os dados permitem o georreferenciamento preciso de áreas de risco passíveis dos efeitos de chuvas, como alagamentos e deslizamentos, localização de geomantas e hidrantes, levantamento de casarões, comunidades onde foram implantados projetos educativos, entre outros, contribuindo para que a gestão municipal possa melhor implementar políticas públicas e prevenir transtornos. A redução de risco de desastres baseada em atividades preventivas, associadas à urbanização sustentável e engajamento comunitário, contribui com a transformação de áreas de risco em espaços de integração, o que vem acontecendo em Salvador. A capital, que adota políticas públicas baseadas no conceito de resiliência urbana, busca reduzir a pobreza, incrementar a geração de emprego e renda, a equidade social e as oportunidades de negócio, tornando os ecossistemas naturais e humanos mais equilibrados. Artigo produzido por André Fraga e Sosthenes Macêdo, originalmente publicado na edição impressa em 08/05/2019 do Jornal Correio.
- Bolívar Sequestrado
No longínquo ano de 2004, eu, então militante estudantil, assisti o documentário sobre uma tentativa de golpe fracassado na Venezuela. Em “A Revolução não será Televisionada”, documentaristas irlandeses que estavam na Venezuela, tiveram a oportunidade de acompanhar passo-a-passo o golpe, mostrando o envolvimento da mídia venezuelana, o viés golpista da maior rede de TV e o envolvimento dos Estados Unidos, que tentou imputar ao então presidente Hugo Chávez, um golpe que durou 48 horas em 2002. Após grande reação popular, Chávez voltou ao palácio presidencial e retomou o controle. Naquela época o acesso a filmes e documentários não era como hoje, em que um clique no YouTube abre uma porta com milhares de possibilidades, o que fez do filme um cult entre a militância democrática, e ajudou a transformar Chávez em uma figura de destaque, ativando nosso sentimento anti-imperialista e anticolonialista, mesmo que ele próprio tenha tentado, por duas vezes, efetivar um golpe militar em 1992. Preso, recebeu o perdão presidencial em 1994, e seis anos depois foi eleito presidente, já sem uniforme militar, com terno e gravata, em uma Venezuela submersa no caos, com a população totalmente desacreditada nos partidos e políticos tradicionais. A mais antiga democracia da América do Sul, passou então a ter Chávez, como presidente pelos 14 anos seguintes, após seguidas mudanças na constituição que permitiram reeleições ilimitadas e deram mais poder a figura do presidente, desequilibrando a relação com os outros poderes. Chávez só deixou a presidência pouco antes de morrer, em 2013, sendo sucedido por Nicolas Maduro, que governa a Venezuela por decreto, com poderes especiais, além do apoio de milícias armadas. Nesse ponto a Venezuela já tinha perdido alguns elementos de uma democracia saudável com forte culto a personalidade de seus “líderes máximos”, limitações na liberdade de imprensa, ataque a direitos humanos e controle da livre organização. Mas piorou. A economia se deteriorou: entre 2013 e 2017 o PIB do país, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, retraiu 37%! A inflação chegou a impensáveis 1.000.000%, ocasionando um aumento constante e acelerado dos preços de itens de consumo básicos, quase impossíveis de serem encontrados nos mercados do país. Lá, dinheiro já não se conta, se pesa. Como gasolina não satisfaz o estômago, o povo venezuelano passa fome, sentado embaixo de uma das maiores reservas de petróleo do mundo. O socialismo do século 21, com cabeça desenvolvimentista do século 19 não conseguiu romper com o modelo rentista petroleiro, muito menos investiu os petrodólares numa mudança de rumo econômico que os fizesse passar por crises com menos solavancos. Um bom retrato do cotidiano por lá é a reportagem “Noticias de Maracaibo: o dia a dia da crise venezuelana”, escrita por Paula Rámon na edição 130 da revista Piauí, que apenas com o relato do cotidiano de sua mãe e sua tentativa diária de sobreviver em meio a escassez de tudo, da desagregação familiar causada pela crise e da violência urbana galopante. A Venezuela vive surtos de doenças como malária, difteria, sarampo enquanto a mortalidade infantil atinge recordes e o IDH despenca. Um outro elemento é muito característico dessa Venezuela de Chávez e Maduro: o culto a Símon Bolívar. Bolívar é certamente um dos maiores heróis da América Latina, liderando a libertação da Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela, do colonialismo espanhol. Defendia a integração da América Hispânica em todas as frentes: economia, energia, educação, saúde. Morreu jovem deixando suas ideias principais em escritos como a Carta de Jamaica, o Discurso de Angostura e o Manifesto de Cartagena, que hoje servem para os bolivarianos promoverem interpretações enviesadas, sequestrando a figura de um dos homens mais importantes da nossa história. Dois monumentos construídos em homenagem a Bolívar simbolizam o desespero dos venezuelanos com a atual situação de seu país. Um é a Ponte Simon Bolívar, que liga a cidade colombiana de Cúcuta à cidade venezuelana de San Antonio, e passa o dia apinhada de gente fugindo do caos que se transformou o país. Estima-se que, quando a fronteira estava aberta, cerca de 35 mil pessoas deixavam a Venezuela pela ponte diariamente. Para eles, os 300 metros da ponte eram a distância exata para a esperança de ter uma vida digna. O outro monumento é a praça Simon Bolívar, que fica em Boa Vista, Roraima. Atualmente vivem em Boa Vista 40 mil imigrantes venezuelanos, o que representou um aumento de 10% da população local. Muitos deles viveram algum tempo na praça que leva o nome do revolucionário e que já chegou a hospedar, de forma precária, mais de 1200 pessoas, entre recém-nascidos e idosos que chegavam vindo pela chamada “Rota da Fome”, o caminho seguido pelos imigrantes pela BR 174 ligando Paracaima a Boa Vista. Segundo as Nações Unidas, 2,3 milhões de pessoas já deixaram a Venezuela, 7% da população do país. Esta Venezuela, paralisada por um impasse político que mata seu povo de fome, não é a Venezuela de Simon Bolívar. Artigo originalmente publicado em 10/06/2019 no site Bahia Notícias.
- Para-brisa limpo, prato vazio
Nossa história já presenciou cinco extinções em massa, que funcionaram como um recomeço evolucionário. Há 450 milhões de anos, 86% de todas as espécies vivas foram mortas. Setenta milhões de anos depois, 75%. Cem milhões de anos após, 96%. Cinquenta milhões de anos depois, 80%, e 150 milhões de anos depois, mais uma vez, 75%. De todas elas, apenas uma, a que matou os dinossauros, foi provocada por um asteroide. Todas as outras foram em função de mudanças no clima da Terra. Uma sexta extinção está em marcha, e você pode percebê-la de uma forma mais fácil que imagina. A sensação de que o número de insetos que se espatifam nos para-brisas tem diminuído é uma pista para percebermos como a população de abelhas, gafanhotos, libélulas, formigas, besouros, borboletas, entre as mais de 1,5 milhão de espécies conhecidas – três vezes mais do que o número de espécies de outros animais somadas – tem diminuído. E esse declínio pode significar a extinção de uma boa parte da vida do planeta. Pesquisadores da Universidade de Sydney e da Academia Chinesa de Ciências Agrárias perceberam que os insetos estão caminhando para a extinção, o que nos levaria a um “colapso catastrófico dos ecossistemas da natureza”, ao analisaram 73 estudos de longo prazo sobre o declínio de insetos ao redor do mundo. A conclusão é de que mais de 40% das espécies de insetos estão sofrendo quedas populacionais em um ritmo constante, e a uma velocidade oito vezes maior, em média, do que a dos mamíferos, aves e répteis. Estudo publicado na Science, analisando dados de pesquisas de campo da Sociedade de Entomologia de Krefeld, Alemanha, desde 1989, constatou que a biomassa de insetos que fica presa em equipamentos de captura diminuiu 80%. As abelhas venceram o plâncton na “final” da escolha realizada pelo Instituto EarthWatch, em novembro de 2008. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), abelhas ou outros insetos são necessários na polinização de cerca de 84% das culturas para consumo humano. Estudo da própria FAO, que comparou 344 regiões agrícolas na África, na Ásia e na América Latina, concluiu que a produtividade é mais baixa nos terrenos que atraíram um menor número de abelhas durante a temporada principal de floração. Diversas são as causas apontadas desse declínio: a urbanização, a agricultura intensiva, o uso de pesticidas e as mudanças climáticas que alteram, por exemplo, os períodos de sincronia entre a floração das plantas e a chegada ou a eclosão dos insetos. Sem eles, o colapso da cadeia alimentar, causado por uma cascara trófica de baixo para cima, atingirá desde predadores até as plantas, aniquilando ecossistemas inteiros, com prejuízos econômicos incalculáveis. Para impedir essa tragédia, é urgente uma drástica redução no uso de produtos químicos como herbicidas, fungicidas e pesticidas, que, quando aplicados, atingem espécies não-alvo, e os neonicotinoides, que têm sido associados ao declínio mundial das abelhas. Infelizmente, de maneira irresponsável, o Brasil bateu recordes na liberação de quase 200 novos agrotóxicos só este ano, alguns proibidos na Europa há mais de uma década. O desaparecimento dos insetos é o golpe final no complexo sistema que sustenta a vida na Terra. Se eles desaparecerem, não irão sozinhos. Artigo produzido por André Fraga originalmente publicado na edição impressa em 04/07/2019 do Jornal Correio. #vidanoplaneta #andréfraga #parabrisa #insetos #extinção #salvador

















